Quem somos | Envie dicas | Contato

Que jogo.

Journey, assim como Cloud e Limbo, é um daqueles jogos épicos com capacidade de trazer à tona aquela velha questão: Videogame pode ser considerado arte?

Mais do que um jogo, Journey é uma experiência.
Ao simples apertar do Start, sua curiosa aventura começa. Você controla um personagem de roupa vermelha (burca?) rumo ao cume de uma montanha que aparece, misteriosa, logo na apresentação do jogo.

Você não sabe quem é o personagem. Ou o que ele faz sozinho, no meio do deserto. Ou ainda o que ele busca no alto desta montanha. A única coisa que você instintivamente faz é guiar o pobre andarilho na direção do seu objetivo. Como o próprio nome diz, Journey é uma experiência sobre o CAMINHO, a JORNADA, e não necessariamente sobre o seu destino.

Os controles são o mais simples possíveis: L3 conduz o personagem, R3 movimenta a câmera. X serve pra usar uma espécie de voo, de uso limitado, e Círculo serve para algo que pode ser chamado de “falar” – o personagem emite pequenos bipes, dependendo da duração do apertar.

É tudo estranho nos primeiros 5 minutos. Onde eu tou? Pra onde ir? Por que ele ‘fala’ desse jeito? O que fazer na frente desta parede? Por que não existe mais NINGUÉM na tela além do meu boneco? Cadê os inimigos?
Quebra total de paradigmas. E, surpreendentemente, você logo se flagra sabendo exatamente o que fazer.

Chegou um ponto do jogo onde eu já estava mentalmente abalado pela sensação de solidão, abandonado no meio de um oceano de areia. E eis que vejo um outro personagem igual a mim, correndo pra lá e pra cá.
Institivamente corri na direção dele, até meio aliviado. Demorou pra perceber que era um jogador de carne e osso igual a mim, e não algo controlado pelo computador. Journey juntou meu jogo ao de outro cara, e estávamos ambos juntos agora, um tanto surpresos, apertando de forma ritmada o botão de “falar” pra tentar alguma comunicação. Não tive como ver o nickname do outro jogador, trocar mensagem, nada. Pura Babel.

Continuei o jogo acompanhado por um certo tempo, passando por fases subterrâneas, deslizando no deserto e no meio da neve, tentando resolver alguns “puzzles” e seguindo rumo à montanha. Quando precisava chamar o outro cara, apertava repetidamente o botão de falar. Me senti como um grego conversando com um chinês.

E é impressionante como eu me senti um pouco desapontado quando o carinha desapareceu entre as fases. Me vi abandonado, na dura jornada, levemente angustiado por estar sozinho de novo. Me flagrei rodando a câmera igual doido, toda hora, em busca de algum outro jogador perdido.

Que jogo, que jogo.

Os gráficos são belíssimos, pura arte mesmo. O visual estilizado do personagem contrasta com os efeitos mais realistas da paisagem. Todas as passagens do jogo, do deserto ensolarado ao breu do subterrâneo, tudo é feito com um esmero absurdo.

A jogabilidade em nada lembra os títulos atuais de mercado. Não há inimigos – pelo menos não na concepção clássica da indústria. Não há necessidade de perícia no controle, é impossível ‘morrer’ – embora haja momentos onde o jogo lembre levemente títulos de plataforma.

Nem o curto tempo de duração (cerca de 2 horas até o final) é um defeito. O jogo dura a medida certa, de forma a não cansar. E o fato de ter um multiplayer embutido é sempre uma razão pra uma nova “jornada”. Ou isso, ou novos replays pra tentar abocanhar os troféus (14 no total).

O preço de 15 dólares pode assustar um pouco. Mas eu insisto que você compre e jogue, de preferência de uma tacada só até o final. Sem interrupções, sem criança ou cachorro latindo ao lado.
Pegue o controle, aperte Start e, como dizem por aí, “aproveite o caminho, e não o destino”.

Sr. Sobrenada, sobretudo, é publicitário, marqueteiro e tricolor, sim senhor. Crítico, cético, ácido. Imoral, ilegal e engorda.
Veja outros artigos por