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UMA BOSTA! Desculpe, mas é difícil sair do cinema sem vontade de pedir o dinheiro de volta.

Com Wagner Moura, Selton Mello e Martin Sheen (sim, pai do Charlie) no elenco, Stephen Daldry (de Billy Elliot, As Horas e O Leitor) na direção e Richard Curtis (Um lugar chamado Nothing Hill, Quatro Casamentos e um Funeral, Simplesmente Amor e Questão de Tempo) no roteiro, era de se esperar um filme ao menos mediano, mas não, é um roteiro completamente desastroso e ilógico, uma trama óbvia, caricata e falha. Eu explico.

Resumidamente e cheio de spoilers (porque você NÃO VAI ver esse filme!), um político corrupto é sacaneado pelo seu braço direito que rouba milhões e junto leva o livro caixa com a contabilidade das propinas com a intenção de ferrá-lo e denunciar tudo. Ele esconde essas coisas e coloca pistas para encontrá-las em sua carteira, que é devidamente arremessada em um caminhão de lixo quando se vê acuado pela polícia que o perseguia. O homem é então torturado e morto.

Três garotos que moram no lixão (junto com outras centenas de pessoas) acham a carteira e começam uma saga para entender o que é aquilo até chegar à grana. A polícia, a mando do tal político, vai no lixão oferecer uma recompensa pela carteira e começa uma caçada aos garotos quando descobrem que eles a encontraram.

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Agora respira.

O braço direito do bandidão, que transporta malas com milhões de reais e sabe de tudo, morava num conjunto habitacional popular, extremamente pobre a ponto de pedir uma geladeira quebrada pro chefe. Qual a lógica disso? Esse cara certamente seria bem remunerado pra não querer passar a perna no chefe tão facilmente, talvez até morar junto com o patrão! Mas vamos em frente.

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O lixão é um descabimento. Aquelas pessoas todas fuçando nas montanhas de lixo, em 2014, no Rio de Janeiro, jura? E aí tem gente que mora até no esgoto do lixão, pior, é um garoto, sozinho, mas que tem energia elétrica e um fliperama, e que mesmo sem computador ou televisão sabe que o tal político é candidato a prefeito, sabe onde ele mora e muito mais. E são três garotos no lixão, porque eles recusariam entregar a carteira para a polícia e pegar a recompensa de R$ 1.000, preferindo seguir em frente (sem nem saber até aquele momento o que/quanto aquilo renderia), fugindo da polícia e chegando um deles a ser torturado quase até a morte?

Algumas cenas dão vontade de levantar e ir embora, eis alguns exemplos. Em certo momento os garotos estão na favela, de noite, dois deles numa obra vazia tentando decifrar uma pista que levaria ao dinheiro e outro foi pra rua procurar comida no lixo em um baile funk. Uma garota no baile puxa assunto toda cheia de graça pra cima do menino. Menino sujo, mexendo no lixo, e ela no baile funk toda arrumada. Parece verídico! Mas antes de acontecer algo mais a polícia chega e bota todo mundo pra correr, aí a garota, que acabou de conhecer o menino (eles mal trocaram duas frases), pede pra três amigos de moto levarem os três garotos pra baixo do morro, e os caras colocam os jovens na garupa e descem, dando fuga na polícia e tudo. Minhanossinhora! Por que esses três caras arriscariam tomar tiro por causa de três moleques que eles não fazem ideia de quem sejam ou o que estão fazendo, só porque a minazinha pediu?

Tudo isso pra acabarem no cemitério, onde o braço-direito-que-roubou-o-político-corrupto escondeu a grana. Quando desvendam mais uma charadinha, acham o túmulo da filha do cara, onde provavelmente o dinheiro está e enquanto olham pro túmulo, a menina vem andando, com um vestido branco todo sujo. Era só o que faltava no filme, um fantasma! Mas pior, ela não está morta, apenas foi deixada lá pelo pai porque alguém em algum momento a buscaria. PQP! O cara roubou 10 milhões, podia deixar a garota com um parente, sumir no mundo, mas não, escondeu a grana no túmulo falso da filha, largou a menina vivendo no cemitério sabe-se lá como, por que obviamente a ideia dele de esconder charadas na carteira ia levar uma pessoa legal até lá pra resgatá-la.

No final, os meninos saem na porrada com Selton Mello (tomando bicuda de criança cara, que vergonha), pegam o dinheiro e voltam pro lixão onde jogam a grana pro alto pra todo mundo pegar.

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Ou seja, é uma grande saga pra falar de corrupção (chegam a citar a Igreja Universal, uma construtora e uma entidade brasileira de futebol) e solidariedade, baseada numa história sem o menor sentido, cheia de furos e clichês. Ah sim, depois de jogar o dinheiro eles vão morar na praia com pescadores (que aparentemente os adotam, sabe-se lá por que), ao invés de pegar o dinheiro e comprar vídeo-game, celular, tênis, óculos… Quem não?

Além de tantas falhas, há coisas batidas como começar pelo fim e o filme ser um flashback, há as cenas que parecem bobas mas que são úteis depois pra desvendar os “quebra-cabeças” que levariam ao dinheiro, mas que são quase óbvias e há os cortes entre cenas que mostram um vídeo dos garotos explicando o que aconteceu (o vídeo é gravado por eles em determinado ponto da trama), uma forma boba de tornar o que está acontecendo mais claro. Isso estava no livro no qual o filme foi baseado, mas poderia ter sido eliminado na adaptação.

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Então é isso. Um lixão do tipo que provavelmente nem existe atualmente e só serve pra levar ainda mais pro resto do mundo a imagem de que o Brasil inteiro é uma grande cidade de Deus (sim, eles acreditam nisso, e acham que usamos aquelas roupas do filme, de décadas atrás), com eventos e pessoas inverossímeis que desafiam a inteligência e boa vontade do espectador, apenas para fazer uma fábula sobre a corrupção que acaba se tornando insossa e petulante.

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Administrador, desenvolvedor, gamer, tecnófilo, viajante, otimista nato, calmo por natureza. Criador do eco4planet, já escreveu para o Gizmodo e Papo de Homem e participou do podcast Guia Prático, do Manual do Usuário.
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